Quem atende crianças com TEA conhece a cena: a sessão está fluindo e, de repente, a criança joga o material no chão, se morde ou se atira no chão chorando. Esses são os comportamentos interferentes — e a forma como a equipe os entende, registra e mede decide se eles vão diminuir ou só mudar de forma.
Este guia reúne o que a Análise do Comportamento Aplicada ensina sobre o tema, do conceito ao registro sessão a sessão.
O que são comportamentos interferentes?
Comportamentos interferentes são aqueles que atrapalham a aprendizagem, a convivência ou a segurança da criança e de quem está ao redor. Na literatura também aparecem como comportamento-problema ou comportamento desafiador. Os exemplos mais comuns na clínica infantil:
- Agressão — bater, morder, chutar, puxar cabelo de outra pessoa
- Autolesão — bater a cabeça, morder a própria mão, arranhar-se
- Birra ou choro prolongado — episódios longos que interrompem a atividade
- Fuga ou esquiva — levantar e sair da mesa, recusar a tarefa, esconder o material
- Destruição de objetos — rasgar, arremessar, quebrar
- Estereotipias — quando impedem a participação na atividade ou o contato social
Nem todo comportamento incomum é interferente. O critério é o impacto: ele traz risco, impede a aprendizagem ou isola a criança? Um balanço de mãos que não atrapalha nada pode não ser alvo de intervenção. O mesmo balanço durante toda a atividade de leitura provavelmente é.
Por que eles acontecem: as quatro funções do comportamento
A pergunta clínica não é "por que ela faz isso?" no sentido de causa interna, e sim "o que esse comportamento produz para ela?". Comportamentos se mantêm porque têm consequências. Na ABA, essas consequências se organizam em quatro funções:
| Função | O comportamento produz | Exemplo |
|---|---|---|
| Fuga / esquiva | Remoção ou adiamento de uma demanda | Joga o material quando a tarefa aparece — e a tarefa é retirada |
| Atenção | Atenção social | Grita quando o adulto conversa com outra pessoa — e o adulto se volta para ela |
| Acesso a tangíveis | Acesso a um item ou atividade | Chora quando o tablet é guardado — e recebe o tablet de volta |
| Automática / sensorial | Consequência sensorial, sem mediação de outra pessoa | Balança as mãos diante dos olhos, sozinha ou acompanhada |
O ponto que mais confunde: o mesmo comportamento pode ter funções diferentes. Duas crianças que batem na mesa podem estar, uma, fugindo da tarefa e, a outra, pedindo atenção. Por isso a intervenção não se escolhe pela forma do comportamento — escolhe-se pela função. É também comum um comportamento ter mais de uma função na mesma criança.
Análise funcional e o registro ABC
Para chegar à função, o ponto de partida mais usado na clínica é o registro ABC. Cada episódio é descrito em três partes:
- A — Antecedente: o que aconteceu logo antes (a demanda apresentada, a mudança de atividade, o adulto que se afastou)
- B — Comportamento (behavior): o que a criança fez, descrito de forma observável
- C — Consequência: o que aconteceu logo depois (a tarefa foi retirada, o adulto reagiu, o item foi entregue)
Um episódio isolado diz pouco. É a repetição de padrões ao longo de vários episódios que sustenta uma hipótese: se quase sempre o antecedente é uma demanda e a consequência é a retirada dela, a hipótese de fuga ganha força. Vale registrar também os eventos contextuais — noite mal dormida, fome, mudança de medicação ou de rotina —, que mudam o quanto uma mesma situação provoca o comportamento.
O registro ABC gera uma hipótese, não uma certeza. A confirmação da função, quando necessária, é feita pelo analista do comportamento com procedimentos próprios de avaliação funcional. E o próprio código de ética dos analistas do comportamento (BACB, padrão 2.14) pede que a intervenção seja baseada nos resultados da avaliação — ou seja, função antes de procedimento.
Definição operacional: o requisito que ninguém pode pular
O ponto mais frágil de qualquer registro de comportamento não é a planilha: são dois terapeutas contando coisas diferentes sob o mesmo nome. "Agressão", sem definição, pode significar um empurrão para um terapeuta e só tapas com força para outro. O gráfico resultante mede a troca de plantão, não a criança.
Uma boa definição operacional é observável, mensurável e sem interpretação. Compare:
- Vaga: "fica agressivo quando contrariado"
- Operacional: "bater com a mão aberta ou fechada em outra pessoa, com força suficiente para produzir som audível; conta-se cada golpe separado por pelo menos 3 segundos"
E tão importante quanto dizer o que conta é dizer o que não conta: "contato acidental durante brincadeira não conta". É esse campo, o do não-exemplo, que a maioria dos formulários esquece — e é ele que faz duas pessoas registrarem a mesma coisa.
Como medir: contagem, taxa ou duração?
A escolha da medida não é detalhe técnico: é ela que decide se o gráfico vai mostrar o que realmente aconteceu. O modelo de LeBlanc e colaboradores (2015), publicado na Behavior Analysis in Practice, é uma das referências mais usadas para essa escolha.
Taxa: quando as sessões têm durações diferentes
Contar ocorrências só funciona se todas as sessões tiverem o mesmo tempo. Na prática, elas variam: 30, 45, 60 minutos. Veja o problema:
- Segunda-feira: 6 ocorrências em 30 minutos = 0,20 por minuto
- Quarta-feira: 8 ocorrências em 60 minutos = 0,13 por minuto
Pela contagem, o comportamento piorou (de 6 para 8). Pela taxa — ocorrências divididas pelos minutos observados —, ele diminuiu. Sem registrar o tempo observado, encurtar a sessão aparece como "redução do comportamento" no gráfico. Por isso, anotar quantos minutos você observou é tão importante quanto contar.
Duração: para comportamentos longos
Para birras, choro e estereotipias vocais, a contagem engana. Uma intervenção pode reduzir a birra de 12 para 4 minutos sem mudar quantas birras acontecem — e a contagem diria "sem progresso" num caso que progrediu. Aqui a medida certa é a duração, idealmente expressa em porcentagem do tempo observado, pelo mesmo motivo da taxa: 20 minutos de birra numa sessão de 30 é muito diferente de 20 minutos numa sessão de 60.
E o registro por intervalo?
Métodos por intervalo (marcar se o comportamento ocorreu "em algum momento" de cada bloco de tempo) são práticos, mas enviesados: o intervalo parcial tende a superestimar o comportamento, e a amostragem momentânea erra ora para mais, ora para menos. Numa sessão individual, em que o terapeuta está olhando para a criança o tempo todo, a medida contínua — contar cada ocorrência ou cronometrar cada episódio — é a preferida pela literatura.
Linha de base e decisão pelos dados
Antes de intervir, mede-se. A linha de base é o retrato do comportamento antes da intervenção, e é contra ela que o progresso será julgado. Sem linha de base, não há como afirmar que a intervenção funcionou — nem que ela não funcionou.
O código de ética do BACB é direto nesse ponto: o analista do comportamento deve representar os dados graficamente, resumi-los e usá-los para decidir se continua, ajusta ou encerra uma intervenção (padrão 2.17), e agir quando os dados mostram que o resultado esperado não está vindo (padrão 2.18). O gráfico, portanto, não é enfeite de relatório: é o instrumento da decisão clínica.
Como reduzir comportamentos interferentes
O plano de intervenção é individual e cabe ao profissional responsável pelo caso. Mas alguns princípios atravessam praticamente todos os planos baseados em ABA:
- Intervir pela função: se o comportamento serve para fugir da tarefa, a estratégia mexe na tarefa e na forma de sair dela — não na forma do comportamento
- Ensinar um comportamento substituto: uma forma adequada de obter a mesma consequência, como pedir pausa com uma palavra ou um cartão (o que se chama de treino de comunicação funcional)
- Ajustar os antecedentes: rotina previsível, avisos de transição, tarefas em níveis alcançáveis, escolhas
- Priorizar reforço positivo e usar procedimentos mais restritivos só depois de demonstrar que os menos intrusivos não bastaram — outra exigência do código de ética (padrão 2.15)
- Envolver a família e a escola, para que as mesmas estratégias valham fora da clínica
Erros comuns no registro
- Contar sem anotar o tempo observado — o gráfico passa a medir a duração da sessão
- Definição vaga — cada terapeuta conta uma coisa
- Registrar de memória no fim do dia — a contagem vira estimativa
- Trocar a intervenção sem olhar o gráfico — decisão por impressão, não por dado
- Pular a linha de base — sem ela, não existe "antes e depois"
Como registrar comportamentos interferentes na prática
Tudo isso é simples no papel e difícil no meio da sessão, com a criança à frente. Foi pensando nesse momento que o ABAplay — plataforma brasileira feita por analistas do comportamento — ganhou um módulo de comportamentos interferentes:
- Biblioteca com 118 comportamentos já com definição operacional sugerida e o que não conta, organizados por categoria — você só ajusta para a criança
- Registro ABC digital, com eventos contextuais; depois de alguns episódios, a plataforma sugere quais comportamentos acompanhar
- Contador de 1 toque durante a sessão, com os minutos observados já preenchidos — a taxa é calculada automaticamente
- Modo duração com cronômetro por episódio, em porcentagem do tempo observado
- Gráfico sessão a sessão com a linha de base e a marca do início da intervenção, e a seção de comportamentos no relatório de evolução em PDF
O registro fica no mesmo lugar das sessões, dos programas de intervenção e do registro de níveis de prompt — é o que um software ABA faz pela clínica: transforma o que acontece na sessão em dado que a equipe inteira enxerga.
Perguntas frequentes
Comportamento interferente é a mesma coisa que comportamento-problema?
Na prática, sim: os dois termos descrevem comportamentos que atrapalham a aprendizagem, a convivência ou a segurança. "Interferente" deixa mais claro o critério clínico — o comportamento é alvo porque interfere em algo, não por ser diferente.
Quantos episódios ABC são necessários para levantar uma hipótese?
Não existe número mágico. Alguns episódios já começam a mostrar padrões, mas quanto mais variados os contextos registrados, mais confiável a hipótese. O importante é registrar logo após o episódio, e não de memória.
Posso medir o mesmo comportamento por frequência e duração?
Pode, mas o ideal é escolher a dimensão que melhor representa o problema clínico: contagem e taxa para comportamentos breves e bem delimitados, como bater ou morder; duração para comportamentos longos, como birras.
Os pais podem fazer o registro ABC em casa?
Podem e costumam ajudar muito, desde que orientados sobre a definição operacional do comportamento. O registro da família mostra antecedentes e consequências que não aparecem na clínica.
Fontes
- Behavior Analyst Certification Board. Ethics Code for Behavior Analysts — padrões 2.14, 2.15, 2.17 e 2.18.
- LeBlanc, L. A., Raetz, P. B., Sellers, T. P., & Carr, J. E. (2015). A proposed model for selecting measurement procedures for the assessment and treatment of problem behavior. Behavior Analysis in Practice, 9(1), 77–83.
